quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Capitu traiu ou não Bentinho???









Uma das maiores perguntas sem resposta da literatura brasileira é: Capitu traiu ou não Bentinho??? Quem já leu o clássico “Dom Casmurro” de Machado de Assis  com certeza já parou para refletir sobre o assunto. A grande questão é tema de trabalhos escolares, redações e até mesmo teses acadêmicas e cada um possui uma opinião.
……………Mas e se Capitu fosse julgada?! E se fosse feito um julgamento como os realizados nos dias de hoje, com provas, testemunhas, advogados, promotor e juiz?! Será que a questão seria finalmente respondida??? Capitu seria considerada culpada ou inocente??? Isso você verá agora..
#**…A primeira coisa a ser considerada é o fato do livro nos mostrar apenas a visão de Bentinho;
#      Outra questão que deve ser levada em consideração é o alerta feito no início da obra quanto a veracidade do que é relatado. O advogado que frequentou o Seminário é um jovem extremamente criativo e perfeitamente capaz de imaginar ou inventar evidências;
#        O sentimento que toma um homem que suspeita de traição, o ciúme doentio e a necessidade angustiada de ver suas suspeitas confirmadas ou completamente anuladas também pode ter levado Bentinho a imaginar uma tristeza escessiva de Capitu no enterro de seu amigo;
### Por outro lado devemos lembrar da grande inclinação de Capitu para a dissimulação. Desde muito jovem ela dá conselhos astutos à Bentinhos e arquiteta planos para que ele possa se livrar do Seminário “usando” José Dias. A forma como ela manipula o jovem mostra sua esperteza e dom de interpretação.
#       O fato da jovem permanecer feliz após a separação faz transparecer a desigualdade de proporção entre os sentimentos de ambos. Enquanto Bentinho se martirizava sonhando com um reencontro, Capitu mantinha o bom humor e as boas relações;
#    ……A semelhança entre Ezequiel, o filho do casal e Escobar, o amigo que teria motivado a traição não pose ser desconsiderada. Os olhares trocados por Capitu e ele, o dia em que Bentinho voltou mais cedo do teatro e encontro o amigo em sua casa, as lágrimas de Capitu no enterro de Escobar… existem evidências;   

ALGUMAS CONTRA-PROVAS 

 * Não há nenhuma prova de que Capitu tenha traído, nenhum testemunho ou flagrante.
*Desde pequena, Capitu já era misteriosa, então poderia ser apenas um fruta da imaginação do nosso Dom Casmurro.

 * O filho de Bentinho com Capitu (que eu não lembro o nome ;X) tinha a característica de imitar tudo e a todos, então ele se parecia com Escobar porque imitava Escobar.

*Bentinho sempre foi mimado e, quando passou a receber menos atenção da mulher, via coisas que poderiam não acontecer.

*. As duas famílias eram amigas, então era natural que o filho acabasse tendo algumas semelhanças com Escobar.
DISSIMULAÇÕES:
  Bentinho também dissimulava. Capitu disfarçava, falava e logo mudava de assunto. Bentinho, porém, mesmo calado fingia. Imagine… Bentinho era calado por natureza. Se ele ficasse nervoso e tentasse disfarçar culpa de modo espontâneo de uma hora para a outra estaria falando abertamente que era culpado. Ao ser questionado sobre o motivo pelo qual não deseja ir ao seminário, dissimula mais uma vez tentando desmentir a “denúncia” de José Dias, alegando não querer ficar longe de sua MÃE. (“Ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio”. / “Vamos enganar toda essa gente…” )
- Capitu era transparente em seus sentimentos. Bentinho os tinha confusos. (“Capitu temia a nossa separação.”)
- Quanto aos supostos olhares entre Capitu e outros rapazes, pode-se dizer que é justificada pela implicância que José Dias tinha com a mesma e com o seu pai. No final do livro o próprio personagem confessa ter exagerado em suas acusações, dizendo que as mesmas foram proferidas devido à antipatia que sentia por seu pai, o Pádua. (Declaração de José Dias no final: “Ela é um anjo… boa, discreta, prendada, amiga da gente, … e uma dona de casa que não digo nada.)
- A mentira é compartilhada por Bentinho que a defende em um dos capítulos. (“A mentira é, muitas vezes, tão involuntária como a transpiração”..)
- Bentinho, inicialmente era confuso acerca de seus sentimentos, apenas se dando conta a partir da “denúncia” de José Dias. Já Capitu os tinha bem claros em sua mente. (“Verdadeiramente foi o princípio da minha vida.”)
- Bentinho esperava uma Capitu frágil e extremamente sensível. Capitu utilizava as mesmas armas de Bentinho. Utilizava a ironia e o sarcasmo quando necessário.
- Bentinho sentia medo. Não conseguia contrariar a vontade de sua mãe. Tal fato pode ser comprovado quando é questionado por Capitu sobre sua preferência (Se tivesse que escolher entre eu e sua mãe, qual escolheria Bentinho?). Quando criança tinha medo de assumir seus sentimentos. (Você vem? Venho. Contra a ordem se sua mãe? Contra a ordem de mamãe…. Mentiroso.)
- Quando Capitu questiona Bentinho acerca de sua preferência (Se escolheria ela ou sua mãe), ela queria apenas testar a sua sinceridade. É claro que ela sabia que escolheria sua mãe. Afinal, não há como competir com amor de Mãe. Com isso ela comprovou que Bentinho não tem opinião própria e como escreve no chão, ele é MENTIROS

Argumentos religiosos

- Bentinho era religioso, porém, duvidava do poder de Deus, uma vez que duvidava das semelhanças entre seu filho e Escobar, mesmo já tendo comprovado antes a mesma semelhança entre a mãe de Sancha e Capitu. Era tão temente a Deus (falo com ironia), que cobiçou a melhor amiga de sua mulher, sendo assim consumada a sua traição no que se refere as normas ditadas pela bíblia. Era tão fiel a Deus que acreditava ser a morte a solução para a sua mente perturbada, sendo capaz de tentar contra a vida de seu filho. (“Não cobice a casa de outro homem… Não cobice a sua mulher…” –)

Outros argumentos

- Situação do Teatro: Bentinho encontra Escobar à porta do Corredor. Não há como provar que o mesmo saíra do apartamento de Capitu. Se Capitu realmente era culpada, porque não dissimulou fingindo ainda estar enferma? Talvez não tivesse motivos e tivesse certeza na confiança de seu marido. (“Encontrei Escobar à porta do corredor.”)

- O livro também dá indícios de que Bentinho era muito cobiçado pelas mulheres, principalmente ao voltar dos seus estudos, o que comprova a confiança que Capitu depositava nele.

- Situação do enterro de Escobar: Capitu era amiga de Escobar, portanto sentiu a morte do amigo. Estava em uma posição que tinha como objetivo oferecer consolo à amiga Sancha. Como amiga, ela ofereceu seu ombro e se encarregou de acalmá-la. Vale lembrar a proximidade entre os casais. O olhar de Capitu ao defunto transparecia a preocupação de Capitu com a amiga que se encontrava sozinha com um filho para criar. Um filme passava por sua cabeça. (“Capitu não dissimulou tristeza que lhe trazia a dor da amiga.”)

- A passividade que recebe a acusação de seu marido: Capitu no capítulo 76 jurou a Bentinho que da próxima vez que ele desconfiasse dela, ela o abandonaria e o deixaria seguir a sua vida. Sim, ela tinha uma personalidade forte, mas sabia respeitar a vontade de seu amado. Antes de tudo ela queria que ele fosse feliz, e se não conseguia encontrar a felicidade junto a ela, o deixou livre para buscar caminhos alternativos. Capitu fugia do ideal da mulher da época, porém certos valores continuam os mesmos na maioria das mulheres não importando a época ou o tipo de sociedade que a mesma se encontra. Qual mulher conseguiria ser humilhada dentro de sua própria casa sem que pudesse tirar da mente perturbada do marido a idéia de traição? (Capitu conhecia muito bem a mente de Bentinho. Ele dava mais créditos às opiniões de terceiros do que às justificativas das pessoas que realmente o amam.Tal fato pode ser comprovado quando José Dias o instiga a respeito do comportamento de Capitu, ainda na adolescência) (Trecho: “à primeira suspeita da minha parte tudo estaria dissolvido entre nós.”)

- Se Ezequiel era realmente filho de Escobar porque Capitu não dissimulava a semelhança? Ao contrário, ela comentava abertamente o assunto com Bentinho. Uma mãe, mesmo que de brincadeira, não faria piadinhas no que se refere ao casamento de duas crianças que são irmãs. Ela não demonstrava frieza e muito menos sarcasmo. Em certo momento do livro Bentinho fala que Ezequiel tinha os olhos de Capitu, porém a expressão de Escobar. Tal expressão pode ter sido adquirida com o costume que o filho tinha de imitar as pessoas, inclusive Escobar! (No início, Bentinho repara semelhanças simples e conforme vai aumentando a perturbação de sua mente, a imagem completa de Escobar passa a ser refletida em seu filho). (Trecho “Escobar chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha.” / “Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas”.)

- O distanciamento de Dona Glória pode ser atribuído à velhice. A maioria das pessoas quando envelhecem têm a tendência a possuírem atitudes mais reclusas, visto que não se sentem no direito de “incomodar” a felicidade dos filhos (Digamos que ela ficou ranzinza).

- A semelhança entre Ezequiel e Escobar parecia não ser notada por José Dias (correspondente de Capitu após a separação) e mesmo que fosse notada era encarada com normalidade por ele, o que sustenta a tese da imaginação obsessiva de Bentinho.
(A imaginação de Bentinho, ainda, é tema de um capítulo, onde ele mesmo retrata a capacidade que tinha de fantasiar, de imaginar coisas. Agora imagine uma mente perturbada, e incrivelmente engenhosa no que se refere à criação de fatos…)

- Acredito sim na semelhança de Ezequiel e Escobar, o que pode ser explicado por causas naturais (como no caso da mãe de Sancha e Capitu) e através do costume do primeiro em imitar o segundo. (“Já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar, e dos olhos…”)

- No momento em que Bentinho tenta matar o filho Capitu entra e ouve Bentinho falando que Ezequiel não era seu filho. O fato de ambos terem olhado para a foto de Escobar não justifica nada, visto que Capitu sabia a causa da desconfiança de seu marido, embora não achasse o menor sentido…

- Escobar era galanteador. E daí? Não justifica… Quando um não quer dois não brigam…

- O próprio Bentinho confessa que suas idéias eram confusas e difusas… no capítulo cinqüenta e alguma coisa … (“A imaginação foi a companheira de toda a existência”)
- Bentinho admirava tanto as características de Escobar, que até mesmo parecia inveja. (Admirava seu corpo, o modo como era querido pelas pessoas, o filho que morria de vontade de ter…) Acredito que a culpa que Bentinho sentia, vinha do fato de sentir inveja de seu melhor amigo. Isso perturbava a sua mente.

- Bentinho era tão neurótico que tinha ciúmes de Capitu com o Mar. Comparava os olhos de Capitu ao mar quando estava de ressaca (Olhos de ressaca)… Por incrível que pareça, Escobar morreu afogado quando o mar estava de ressaca…

- Bentinho se identificou com Otelo. Detalhe, em Otelo Desdêmona era inocente e seu marido era ciumento. (“Se ela deveras fosse culpada, tão culpada como Capitu?”)

- Capitu economizava, logo não faz sentido o casamento por interesse. Mesmo rica Capitu não aceitava depender totalmente de Bentinho (“Já disse que era poupada…”)

- Por que Bentinho não levou Capitu a julgamento? É nítido no livro as sensações de culpa e incerteza do senhor Bento Santiago. Ele mostra não ter certeza da traição, mesmo assim no último capítulo encara a traição como algo certo e conformado (Contradição). O mesmo fez pior ao exilar sua mulher e seu filho. Além disso, queria manter as aparências sociais (“Quis o destino que acabassem juntado-se e enganando-me…”)
- Olhos de Ressaca: Bentinho apenas começou a desconfiar do olhar de Capitu após a declaração de José Dias. Não se pode levar em consideração aspectos sensíveis (opiniões), pois estes acabam levando à sofisma (crença falsa). Bentinho sentia-se atraído pelo olhar determinado de Capitu e, como todos, sentia-se extremamente fascinado.
Argumentos Clínicos
- Loucura de Bentinho à Esquizofrenia.
- Bentinho ouve vozes e vê coisas.

Argumentos para utilizar em um “júri simulado”

- O adultério não é mais crime:
Art. 1º Fica revogado o art. 240 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal Brasileiro), que tipifica o crime de adultério, renumerando-se os artigos seguintes.
Art. 2º Esta lei entrará em vigor na data da sua publicação.
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.
- Na época em que a obra foi escrita, é provável que o adultério ainda configurasse crime. PORÉM, a pessoa só era considerada culpada se o ato sexual fosse visto pelo marido. Ou seja, Bentinho não tem provas concretas a respeito da culpa da senhora Capitolina, logo não se pode condená-la.
TODOS SÃO INOCENTES, ATÉ QUE SE PROVE O CONTRÁRIO! (INDUBIO PRO REO)

  O sabetudo.com


 



  


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Um comentário:

  1. Amei, muito obrigado pelo texto! Vou participar de um Juri Simulado na minha escola e eu irei defender Capitu. Esse texto me ajudou muito!

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