domingo, 17 de fevereiro de 2013

JOGOS DE LEITURA

ADIVINHAÇÂO e/ou CHECAGEM DE HIPÒTESES

Pega-se uma narrativa de preferência curta, e que tenha, em alguma medida quebra de expectativas. Recorta-se o texto em vários fragmentos correspondentes a pequenos episódios; os cortes devem coincidir  com momentos em que a (s) personagem (s) vai (ão) tomar uma atitude ( mudança de cena );deve-se cuidar para que o fragmento  não seja nem muito pequeno, a ponto de não oferecer nenhuma informação nova, nem muito grande , a ponto de tornar a atividade enfadonha; evita-se de inicio dizer o nome do autor do texto, porque seu conhecimento deve criar novas expectativas  por causa do estilo, da temática, das posições políticas, etc. nem sempre interessante ao exercício.
A atividade começa com o oferecimento do primeiro fragmento ( pode ser apenas o título ) aos alunos, pedindo que escrevam (  individualmente ) o que vai acontecer  na história. Faz-se,  então, a leitura e a discussão do que escreveram, individualmente imaginavam o que vai acontecer na história  Faz então a leitura e a discussão do que escreveram  anotando-se as expectativas criadas pelo fragmento e  o   que as teria motivado, ( normalmente algum  índice do texto ou o valor ‘’mais  comum’’ de certas palavras ou, ainda, alguma projeção ideológica do leitor ). Passa-se, então, para o segundo fragmento, que pode confirmar ou anular  a primeira adivinhação ( hipótese)   e repete-se todo o procedimento. E, assim, sucessivamente até o final da história.
É importante deixar claro aos alunos que eles não precisam acertar .Que a brincadeira está em tentar adivinhar e não em acertar o que tem na história. Do mesmo modo, é importante explicitar  que não precisam insistir na sua história; se ‘’ adivinharam’’ no primeiro segmento não servir após a leitura do segundo, podem abandonar aquela ‘’adivinhação’’  ‘’hipótese’’ e começar outra.
O exercício aguça a curiosidade do leitor, contribui para  o entendimento do texto  e explicita recursos importantes da língua . No entanto, sua finalidade primordial ‘’ não é ensinar técnicas de leitura ou conceitos ‘’, mas promover a leitura viva , crítica e criativa. Pode ser usado em qualquer nível escolar  importando escolher um texto que esteja de acordo com o nível da turma.
A título de exemplo apresento uma sugestão de leitura, com o JOGO DE ADIVINHAÇÔES e/ou CHECAGEM DE HIPÒTESES  feita com o conto PASSEIO NOTURNO ( parte I,2 ) de Rubem Fonseca . Os comentários que faço são resultado daquilo que ocorreu nas vezes em que fiz este exercício.
  FRAGMENTO :  PASSEIO NOTURNO
O título da história sugere algo introspectivo, suave e delicado . As pessoas normalmente sugerem  uma caminhada por um bosque, uma praia  um parque, uma rua trantranquila; personagem estaria .relembrando coisas do passado, pensando na vida. Tem-se aí um exemplo típico de projeção ideológica e de repertório cultural atuando sobre a leitura: passeio é lazer, descanso e, portanto, não combina com violência. Agressão, etc. Sem dúvida, o autor considerou estas questões ao escolher o título para seu conto.
O professor após apresentar  o título da história pede aos alunos que escrevam o que acham que vai acontecer. É interessante, na leitura das ADIVINHAÇÔES/ CHECAGEM DE HIPÒTESES dos alunos, criar polêmica, perguntando o porquê  de tal ou qual impressão, etc.

   FRAGMENTO:  
  • Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis
  • Relatórios, estudos, pesquisas,propostas, contratos. Minha
  • Mulher, jogando paciência na cama, um copo de uíque na
  • mesa de cabeceira, disse,  sem tirar sem tirar os olhos das cartas,
  • você está com um ar cansado . Os sons da casa: minha filha
  • no quarto dela treinando empostação de voz, a música
  • quadrifônica do quarto do meu filho . Você não vai largar
essa mala?, perguntou a mulher, tira essa roupa, bebe
um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.
Logo de cara o autor, já quebra a expectativa criada. Ao invés de criar um ambiente aberto, tranquilo que convide ao passeio e à reflexão, o leitor se depara com um ambiente  fechado – um apartamento -  inóspito, opressivo, desagradável. O personagem narrador surge como alguém injustiçado, sem consideração dos filhos e da mulher. Mas a ideia de um passeio noturno está mais que nunca justificada: espairecer a cabeça, descansar, esquecer. Novamente o professor  pede  para que os alunos escrevam  como vai continuar a história. Já nesta passagem há o contato com o protagonista ( o narrador ).e com o jogo de tensão: o comportamento da família.
 FRAGMENTO :
Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de
ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de
pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu
esperava apenas. Você não para de trabalhar, aposto que
os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a
mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo
na mão, já posso mandar servir o jant
Cresce a tensão narrativa; a personagem feminina é insuportável, forçando o narrador a querer fugir dela, uma alcoólatra histérica. Identificado com o narrador, o leitor tem pena dele. Normalmente, nas adivinhações aparecem as possibilidades da catástrofe.
-------- o marido vai convidar a mulher para passear e assassiná-la – e da traição – o narrador sai a procura de outra, de uma aventura amorosa. A ideia inicial de um passeio por lugares idílicos pode ganhar uma nova versão : “” o passeio mental “”, uma viagem solitária pelo pensamento.
 FRAGMENTO :
A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e
A minha mulher estávamos gordo. É aquele vinho que você
gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu
dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me
pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu,
nós tínhamos conta bancária conjunta. Vamos dar uma volta
de carro ? , convidei.

A tensão em casa chega ao limite: num jantar milionário imperam a frivolidade e a hipocrisia que exasperam e sufocam o ‘’ bom pai ‘’. É evidente a posição de coitadinho em que se coloca o narrador .justificando a necessidade de um passeio, uma aventura, ou até, de um crime que o libertasse de seu algoz.
Um elemento novo e inesperado é introduzido na narrativa:  um carro. Ele traz de volta a ideia já meio esquecida do passeio, ainda que retirando seu ”” bucolismo “”. O convite é para saírem juntos, ela aceita ? Se saírem juntos,  vão fazer as pazes ou brigar ?  Será que ele a mata ? Se sair sozinho, que vai fazer ? Matar-se ( atirando-se de um despenhadeiro ) ? Paquerar alguém e viver uma aventura ? Encontrar-se com a amante ? Neste momento do exercício já é grande a curiosidade dos alunos de como vai acabar a história; o professor deve aproveitar o momento para esquentar o debate fazendo perguntas polêmicas  e provocadoras, do tipo “” o que cocês fariam nestas circunstãncias ?””
 FRAGMENTO :
Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça
Acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro
Custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me
Apego menos aos bens materiais, minha mulher responde

Volta a rotina neurótica da casa. Ela não vai sair com ele que já esperava por isto; tudo não passa de um teatro. Torna-se mais forte a hipótese da amante ou da aventura; perdem forças as hipóteses do assassinato ou do suicídio. Alguns alunos percebem índices importantes  - o carro “” custou uma fortuna “” e ele sai “”todas as noites”” -  que mudam os rumos das expectativas. Ele vai sair sozinho para quê ? Espairar a cabeça ? Encontrar a amante ? Beber ?  Acontecerá alguma coisa de diferente ( essa ideia é forte e decorre da ideia de que uma história normalmente traz um conteúdo pouco comu

 FRAGMENTO :
Os carros dos meninos bloqueavam as portas da garagem,
Impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei
Na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros
Novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas
Me deixaram levemente irritado, mas  ao ver os para-choques
Salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado,
Senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na
Ignição, era um motor poderoso que gerava  a sua força em
Silêncio, escondido no capô aerodinamica.
O carro ganha importância; há claramente algo de fetichista  e anormal na conduta do narrador,  fazendo com que seja iminente uma catástrofe, traição ou crime. O narrador começa a mostrar sua outra face, que pode ser a de um  quarentão playboy  ou coisa que valha. Já não há mais espaço para um passeio como imaginado a partir da leitura do título, mas em função das projeções ideológicas  e do desejo do leitor não surgem adivinhações muito catastróficas ( há sempre  a possibilidade de a coisa dar certo ).
7º FRAGMENTO
Saí, como sempre sem saber onde ir, tinha que ser uma
rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas
Na Avenida Brasil, ali não pode ser, muito movimento.
Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras,
Alugar ideal. Homem ou Mulher ? Realmente não  fazia grande
Diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei
a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio
era maio 

O texto toma nova direção, aparecendo com toda força  a sugestão que trata de um Maníaco sexual enrustido. A hipótese mais óbvia é a de estupro que pode ser seguido de assassinato; além disso, há sugestões de sadismo e masoquismo , etc. Alguns, sem perceber certos índices, insistem na possibilidade de alguém  que busca  carinho
8º FRAGMENTO
Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos
emocionante por ser mais fácil. Ela caminhava
apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário,
coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e de blus
andava de pressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte
metros, um interessante problema a exigir uma grande dose
de perícia.
Está bem estabelecida a imagem da violência, que, aliás é o motivo do próprio passeio. A pergunta que resta é que o narrador vai fazer com a mulher:  sequestra-la?, estuprá – la? , matá-la? Como? sem lembrar  que o passeio acontece todas as noites,   pensa-se em um modo de abordar a mulher (  o narrador desce do carro ou apenas reduz a felicidade e convida-a para subir ? é delicado e sedutor ou autoritário e agressivo ? ) o leitor está tenso, quer saber o final e tem raiva do narrador
9º FRAGMENTO :
Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela s
Percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o
Som da borracha dos pneus batendo no meio-fio.
Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio
das duas pernas, um pouco mais sobre a
esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho d
impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada
rápida para a esquerda, passei como um foguete
rente a uma das árvores e deslizei com os pneu
cantando, de volta para o asfalto. Motor bom,
meu, ia de zero a cem quilômetro em novembro
segundos. Ainda deu para ver o corpo todo
desengonçado da mulher havia ido parar, colorido
de sangue, em cima do muro, desses baixinhos de
casa de subúrbio. Examinei o carro na garagem.
Corri orgulhosamente a mão de leve pelos para-
lamas, os para-choques sem marcas. Poucas
pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha
habilidade no uso daquelas máquinas. A família
estava vendo televisão . Deu a sua voltinha, agora
está mais calmo ? perguntou minha mulher,
deitada no sofá, olhando fixamente ovídeo. Vou
dormir, boa noite a todos, respondi, amanhã
vou ter um dia terrível na companhia .
O desenlace e o epílogo são ainda mais sádicos e cínicos do que poderíamos imaginar, chegando a requintes de violência. Um crime diário por prazer, violentíssimo seguido de uma brutal hipocrisia. O texto joga na cara do leitor, com uma ironia mordaz, toda a violência da vida urbana. E fez isto mostrando uma frieza e calma tais que a agressão fica ainda maior.
Terminada a fase da ADIVINHAÇÂO, faz-se uma nova leitura  do texto, que permite reinterpretar e sentir mais os índices, entender como e porque não tinham sido percebidos, descobrir o quanto a visão de  mundo de cada um atua na  interpretação do texto.
O jogo da adivinhação às estruturas subjacentes da narrativa, ampliando a percepção  dos recursos usados pelo autor e pelo leitor na construção da narrativa. A explicação e nomeação destes recursos é uma atividade  que até pode ser levada adiante , se for do interesse do professor, mas não é fundamental. O mais importante é o aluno poder experimentar estes aspectos na sua leitura.
 Luiz Percival Leme Britto  Jogos de Leitura

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um comentário:

  1. Oi Ivanete!
    passo por aqui para saber das novidades e gosto do que leio.Vc tem ótimas sugestões como esta.
    Tenho alunos dos anos iniciais do ensino fundamental e preciso sempre estar motivando e criando novas estratégias.Caso tenha algum material ou indicação de estratégias de leitura para os menores na fase alfabetização, ficaria muito grata pelo auxílio.
    Parabéns pelo conteúdo do blog.
    Beijos e até mais!
    www.rosangelaprendizagem.blogspo.com

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