quinta-feira, 2 de maio de 2013

A leitura na ilha deserta parece sugerir que todo livro deveria ser lido assim : implacavelmente, sem distrações, sem mudança de assunto, sem mistura co leituras de outro tipo.


O Livro e a Ilha Deserta

É um lugar- comum da nossa cultura perguntar a alguém que livro ( ou livros ) levaria para uma ilha deserta .Até parece que um sujeito numa ilha deserta está num hotel 5 estrelas tudo pago, onde ele pode apenas ler e cochilar. ( basta ler o Robinson Crusoé, de Daniel Defoe , ou ver o filme Náufrago, de Roberto Zemeckis, com Tom Haanks, para ver que um sujeito sozinho numa ilha deserta trabalha durante todo o tempo de que dispõe.)
Em todo caso, a pergunta não é realista, é metafórica, e significa : “ Que livro você levaria consigo, se pudesse ler apenas um ? “Claro que as respostas espirituosas logo surgiram. Alguém diz que gostaria de levar A ARTE DE CONTRUIR CANOAS .Outro diz que levaria OBRAS PRIMAS DA LITERATURA UNIVERSAL em um só volume , e assim por diante.
Na verdade, quando vejo essa pergunta, o sentido que me vem à mente é : que livro você escolheria se soubesse que poderia ler sem ser interrompido ? O que me seduz na metáfora da ilha deserta é a certeza hipotética de que estou sozinho e posso ler no ritmo que me interessar . Ler, principalmente ler grandes livros , livros com centenas de páginas, é uma empreitada a longo prazo, que desde o princípio já prevê interrupções e pausas, e por isso mesmo precisa compensá-las com horas de mergulho total, imersão total na hora da leitura.Edgar Allan Poe aconselhava que um conto deve ser lido de uma só vez; sua leitura deve ser uma experiêencia inteira, concentrada.Não se pode fazer o mesmo com um romance, embora muita gente, eu inclusive, já tenha lido num dia só um romance de 200 ou 250 páginas ( mas isso é raro, é uma exceção ). Muitas vezes lemos 30 ou 40 páginas de um livro, mas por várias razões só podemos pegar nele de novo dias depois ; é preciso então dar uma passada de olhos no que já foi lido, para avivar a memória.
Um livro é escrito aos poucos e lido e lido aos poucos.Há, entretanto, uma pressuposição meio utópica, da parte do autor, de que em qualquer instante da leitura o leitor tem o livro todo presente na memória, oque é claramente impossível.
Um certo diálogo na página 245 ecoa um assunto que foi discutido na página 80; o leitor está lembrado ? Talvez não, mas o autor lava as mãos : está tudo lá, e cabe ao leitor se virar como puder. A leitura na ilha deserta parece sugerir que todo livro deveria ser lido assim : implacavelmente, sem distrações, sem mudança de assunto, sem mistura co leituras de outro tipo. E, chegando ao final, voltando para a página 1 para reler tudo, porque a segunda leitura de um bom livro é sempre é sempre mais rica do que a primeira, embora muita gente precise naufragar numa ilha deserta para perceber essa verdade. 

Bráulio Tavares ( escritor e Compositor )

 

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