sábado, 29 de junho de 2013

Para não repetir a barbárie dos colonizadores Esther Pillar Grossi


 

Doutora em Psicologia Cognitiva pela Universidade de Paris

https://www.facebook.com/esther.pillargrossi

Associando-me à voz das ruas, dirijo-me à sra. Presidente da República, para gritar bem forte:
- De nada adiantará destinar 100% dos royalties do petróleo para educação se nada se modificar, concreta e rapidamente, no coração das salas de aula, a começar pela alfabetização.
Se a alfabetização não for feita aos 6 anos, no 1º ano do Ensino Fundamental, o desastre do nosso analfabetismo continuará minando fragorosamente as esperanças de igualdade democrática em um de seus alicerces mais profundos. Grupo que não domina a escrita em pleno século XXI, é grupo escravo.
Ora, temos ainda cerca de 50 milhões de analfabetos adultos, que o são, não porque não frequentaram escola. Frequentaram, sim, por vários anos e dela saíram analfabetos. É, portanto, a escola que não sabe alfabetizá-los. Não sabe alfabetizar alunos de escolas públicas, e para evitar esta constatação dolorosa prolonga-se criminosamente por 3 anos o tempo para tentar fazê-lo.
Enquanto isto, os filhos das classes médias e altas, não porque a escola seja boa para eles, mas simplesmente porque eles convivem desde que nascem com pessoas alfabetizadas e que usam diuturnamente a escrita, se alfabetizam em sua totalidade entre 5 e 6 anos.
Prolongar a duração da alfabetização, se não se modifica a proposta pedagógica nas escolas de nada adianta. E por quê? Porque aprender é vivenciar situações em que os elementos do que se está aprendendo levam a pensar e a perguntar.
As crianças de classes altas e médias, que convivem com pessoas que leem e escrevem, cedo começam a se perguntar o que é ler e escrever. E, mais do que isso, apalpam que a escrita tem valor porque percebem com evidência que ela é útil e necessária para seus pais, para seus irmãos mais velhos, para seus tios, para seus avós,...os quais são para eles modelos de identificação.
Quem não viu criança imitando adulto que lê, numa casa que há pessoas que leem? Quem não viu criança fazendo de conta que escreve ou que digita porque quer ser como aqueles que são seus ideais?
Enquanto imita, a criança se faz gradualmente perguntas sobre o que é este bem a que ela ainda não tem acesso. Perguntam-se onde os leitores leem, se nas imagens ou nas letras? Perguntam-se se letra e número poderão ser a mesma coisa?
Se a primeira letra do seu nome é só dela, como ela é única entre os viventes?
É preciso que a escola para crianças que vêm de ambientes não alfabetizados, e são muitos no Brasil, crie na sala de aula um ambiente alfabetizador tão próximo quanto possível daquele que os agraciados vivem desde que nascem.
E o faça de forma tão adequada que compense em um ano letivo, o que crianças privilegiadas viveram em 5 ou 6 anos. Pois o fantástico é que isto é possível. Vem sendo concretizado em todos os estados brasileiros no Programa Correção de Fluxo Escolar na Alfabetização, do Ministério da Educação. Mais do que em um ano letivo, alunos ainda não alfabetizados que estão na escola com mais de 8 anos logram ler e escrever em no máximo 5 meses.
A amostra científica que comprova esta possibilidade é composta por 60.000 alunos deste Programa, desde Roraima, passando pelo Piauí, por Minas Gerais, até chegar no Rio Grande do Sul. Portanto, Senhora Presidente, continuar não abrindo as portas da escrita para tantos contemporâneos, quando já se tem comprovada a possibilidades de fazê-lo, é inadmissível.
Assim como os colonizadores desclassificaram os indígenas, legítimos habitantes das terras descobertas, marginalizando-os, fazemos o mesmo hoje com uma parcela considerável da população, aquela que privamos da escrita, marco da civilização. E o fazemos com ares de superioridade – os pobres, alunos de escolas públicas, não têm condições de aceder ao patamar das classes dominantes, cujos filhos aprendem a ler e a escrever aos 5 ou 6 anos. E então os colonizamos, concedendo-lhes três anos para fazê-lo, isto é, até os 8 anos.
Ao conceder este prazo dilatado os estamos diretamente condenando à não alfabetização, pois aprender é um fenômeno social e histórico: quem não se alfabetiza no espaço e no tempo que já foi amplamente constatado ser possível, não o fará com mais tempo.
Sara Pain, uma das grandes pensadoras da atualidade, alerta “o tempo é inimigo das dificuldades de aprendizagens”. Ampliar o tempo para alfabetizar alunos de camadas populares é uma criminosa repetição da falsa benevolência dos colonizadores, que julgaram os donos da terra, os habitantes milenares dos solos americano e africano, incapazes de aceder a seu pretendido estágio civilizatório avançado.
Alfabetizemos, pois, todos os brasileiros aos 6 anos, para não repetir a barbárie dos colonizadores.

Esther Pillar Grossi
Doutora em Psicologia Cognitiva pela Universidade de Paris

 

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