sexta-feira, 12 de julho de 2013

CAPITU NO TRIBUNAL


 CAPITU NO TRIBUNAL

Folha de São Paulo, de 25/06/1999

Em 1999, por ocasião das comemorações de publicação de DOM CASMURRO, de MACHADO DE ASSIS , o Jornal Folha de São Paulo promoveu um julgamento de CAPITU .Participaram do julgamento José  Paulo Sepúlveda Pertence, ministro do Supremo  Tribunal Federal;o advogado criminalista e Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos ;a Procuradora de Justiça Luiza Nagib Eluf, autora do livro Crime contra os costumes e assédio sexual; o historiador Boris Fausto; Rosiska  Darcy de Oliveira advogada e escritora; e os Escritores Carlos Heitor Cony e Marcelo Rubens Paiva.

Unindo  argumentação jurídica , que levou em conta a legislação  vigente hoje e no final do século XIX , aos fatos narrados na obra por BENTINHO , o julgamento prestou uma importante homenagem a obra de MACHADO DE ASSIS que é, sem dúvida, um dos principais romances brasileiros. Além disso, permitiu examinar o suposto adultério de CAPITU sob o ponto de vista das LEIS e dos VALORES DA ATUALIDADE.

Ao final do julgamento feito pela classe, o professor revelará os resultados do julgamento de CAPITU promovido pelo jornal.

  OS AUTOS

A principal fonte de informação e de provas  do suposto adultério de CAPITU é o relato feito pelo próprio BENTINHO. Por isso todos os alunos que tiverem uma participação direta no julgamento  - seja na condição de juiz ou de advogado , seja na de testemunha ou jurado  - devem LER integramente a obra.Durante a LEITURA, devem estar atentos  a situações e pistas que possam incriminar ou inocentar CAPITU  e anotá-las para posterior consulta ou citação.

2° DEFININDO OS PAPEIS

O JUIZ -  Escolham para o  papel  um colega que tenha facilidade para administrar situações de conflito e bom senso de organização . Ele deve ser coerente, equilibrado, imparcial.

A RÉ -     CAPITU é a ré. Ela poderá ser questionada pelo advogado de acusação e prestar esclarecimentos, se solicitado, ao advogado de defesa e ao juiz.

OS ADVOGADOS DE DEFESA E DE ACUSAÇÂO – A condição essencial para o papel é gostar de falar em público e ter uma boa capacidade de ARGUMENTAÇÂO. Devem saber selecionar, organizar e apresentar  as provas de modo claro, coerente e gradativo; devem também saber sensibilizar os jurados , manter um bom relacionamento com o juiz e ter facilidade para contra-argumentar.

TESTEMUNHAS  - Se  houver testemunhas, elas devem corresponder a personagem da obra  e devem se limitar aos fatos narrados . Podem evidentemente , esclarecer  com detalhes  o que viram ou sentiram, mas não podem modificar os fatos ocorridos na história.

OS JURADOS  - São sete. Eles devem ter a capacidade de ouvir com atenção os argumentos apresentados pela defesa e pela acusação e votar de acordo com a consciência , sem que outros fatores ou interesses  interfiram.

O PÚBLICO – Não é permitido ao público falar durante o julgamento nem ter nenhuma outra forma de manifestação, como rir, brincar, etc.

3   ESTABELECENDO AS REGRAS

Em combinação com o professor, todos os envolvidos devem estabelecer previamente as regras do julgamento: o tempo de cada advogado, o tempo total do evento, se os advogados terão direito de réplica e de tréplica, se serão feitas perguntas a CAPITU e quantas, se serão apresentadas testemunhas e quantas, etc.

4    PREPARANDO A SALA

No dia combinado , preparem o ambiente para o julgamento. O juiz deve ter sua mesa na frente da sala; no centro; em cada uma das laterais fica um dos advogados , com uma mesa de apoio. Os jurados devem ficar em um dos lados da sala ou na primeira fileira ,à frente do público. A ré deve permanecer perto do advogado de defesa.

5             COLHENDO INFORMAÇÔES  (  VEJAMOS ALGUNS ARGUMENTOS )

 

*Argumentação apresentada por Luiza Nagib Eluf, em sua participação como Advogada de Defesa

Absolutamente toda suspeita em DOM CASMURRO , para Nagib Eluf é invenção da mente neurótica do marido ciumento.

“” Essa história é milenar. É a história da paranóia masculina “”disse a advogada, para êxtase da platéia que vinha acompanhando sua narrativa com atenção. [...]

O retrato do marido de CAPITU traçado por Luiza Nagib  Eluf é o de “”um sujeito que contruiu sua própria ruína. A semente da destruição mora em Bentinho .””

Foi a paranóia que o teria levado  a ver uma confissão  de culpa no comentário da própria CAPITU sobre a semelhança dos olhos de Ezequiel com os de Escobar  - o que, disse a advogada “”não seria dissimulação , seria burrice. “”[...]

Para Nagib Eluf, quem deveria estar sendo julgado ali era o marido Bentinho, por paranóico, neurótico, e inseguro que era, “”ensandecido de ciúmes, como muitos homens que mataram suas esposas””

*Argumentação apresentada por Marcio Thomaz Bastos, em sua participação como Advogado de Acusação

 
Bentinho  conta que só lembra de ter ido sem Capitu ao teatro duas vezes. Em uma delas, a  MOÇA DOS “”OLHOS DE RESSACA “” diz que não poderia assistir a estréia de uma ópera , pois tinha adoecido. Preocupado  com o padecimento da mulher, Bentinho volta mais cedo, após o primeiro ato. Quando chega em casa encontra Escobar. O amigo explica que tinha ido lá para tratar de alguns negócios. Em sua acusação, Bastos dramatizou a situação de modo a demonstrar que a “”terrível dor de cabeça”” de CAPITU que “”logo desaparece””, estaria intrinsecamente ligada a visita inesperada de Escobar. “” É uma explicação de quase flagrante”” explicou o advogado.

 
*Argumentação apresentada por Marcelo Rubens Paiva, escritor dramaturgo e autor do livro Feliz ano Velho , e no julgamento faz o papel de testemunha de acusação.

 
“”Bentinho era um chato e acho que tinha tendências homossexuais “”. A sua relação com Escobar era bem estranha.

 
Argumentação apresentada por * Carlos Heitor Cony,  jornalista ,escritor e autor de Quase memória,   que participou do julgamento como testemunha de acusação.

 
“”Assim como Bentinho diz que Capitu adulta já estava na criança , como um fruto dentro da casa , é preciso ver que Bentinho era uma pessoa que foi traído que estava na casa.. Desde a infância era um chifrudo em potencial. Ela foi uma adúltera , mas, cá entre nós, embora testemunha de acusação , eu absolvo, porque, CAPITU foi uma adúltera extraordinária. E, se não fosse, a humanidade seria muito mais chata do que é

 
* Argumentação apresentada por Rosiska  Darcy de Oliveira, em seu testemunho de defesa.

 
Em um discurso que mesclou o feminismo  argumentação jurídica e  interpretação literária , Rosiska  procurou demonstrar que era Bentinho , e não CAPITU, quem tinha desejos de infidelidade  ( pela mulher do amigo Escobar, Sancha}.
“”Por ser Bentinho um traidor , só pode ser absolvido pela traição dela””, disse Rosiska, comparando DOM CASMURRO  a OTELO de SHAKESPEARE. “” Se Desmdêmona, que era inocente, mereceu morte, o que não merecia CAPITU, que é culpada ?””

 
* Argumentação apresentada por Boris Fausto, historiador, professor da USP, que participou como testemunha de defesa.

 
“”Essa peça, do ponto de vista de uma acusação jurídica, é absolutamente imprestável, com licença de MACHADO DE ASSIS.É uma história contada por alguém  que tem sua versão , que está confiante de estar sendo traído pela mulher.O que ocorreria se CAPITU falasse ???

 
CEREJA, William Roberto

Português: Linguagens , volume único/ William Roberto Cereja, Thereza Cochar Magalhães. – São Paulo: Atual, 2003;.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário