quinta-feira, 5 de junho de 2014

 
Se eu fosse pintor,
começaria a delinear
este primeiro plano de trepadeiras entrelaçadas,
com pequenos jasmins e grandes campânulas roxas,
por onde flutua uma borboleta cor de marfim,
com um pouco de ouro nas pontas das asas.
Mas logo depois,
entre o primeiro plano e a casa fechada,
há pombos de cintilante alvura,
e pássaros azuis tão rápidos
e certeiros que seria impossível deixar de fixá-los,
para dar alegria aos olhos
dos que jamais os viram ou verão.
Mas o quintal da casa abandonada
ostenta uma delicada mangueira,
ainda com moles folhas cor de bronze
sobre a cerrada fronde sombria,
uma delicada mangueira,
repleta de pequenos frutos,
de um verde tenro,
que se destacam do verde-escuro
como se estivessem ali
apenas para tornar a árvore um ornamento vivo,
entre os muros brancos,
os pisos vermelhos,
o jogo das escadas e
dos telhados em redor.
E que faria eu, pintor,
dos inúmeros pardais que pousam
nesses muros e nesses telhados,
e aí conversam, namoram-se, amam-se,
e dizem adeus,
cada um com seu destino,
entre a floresta e os jardins,
o vento e a névoa?
Mas por detrás estão as velhas casas,
pequenas e tortas,
pintadas de cores vivas,
como desenhos infantis,
com seus varais carregados de toalhas de mesa,
saias floridas,
panos vermelhos e amarelos,
combinados harmoniosamente
pela lavadeira que ali os colocou.
Se eu fosse pintor, como poderia
perder esse arranjo,
tão simples e natural,
e ao mesmo tempo de tão admirável efeito?
Mas, depois disso, aparecem várias fachadas,
que se vão sobrepondo umas às outras,
dispostas entre palmeiras e arbustos vários,
pelas encostas do morro.
Aparecem mesmo dois ou três castelos,
azuis e brancos,
e um deles tem até,
na ponta da torre,
um galo de metal verde.
Eu, pintor,
como deixaria de pintar tão graciosos motivos?
Sinto, porém, que tudo isso
por onde vão meus olhos,
ao subirem do vale à montanha,
possui uma riqueza invisível,
que a distância abafa e desfaz:
por detrás dessas paredes,
desses muros,
dentro dessas casas pobres e
desses castelinhos de brinquedo,
há criaturas que falam, discutem,
entendem-se e não se entendem,
amam, odeiam, desejam,
acordam todos os dias com mil perguntas e
não sei se chegam à noite com alguma resposta.
Se eu fosse pintor,
gostaria de pintar esse último plano,
esse último recesso da paisagem.
Mas houve jamais algum pintor
que pudesse fixar esse móvel oceano,
inquieto, incerto,
constantemente variável
que é o pensamento humano?
Cecília Meireles

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