sábado, 4 de abril de 2015

PARA TRABALHAR ADJETIVOS

  O homem que veio à noite

Adjetivos bem selecionados têm o poder de determinar a atmosfera de um texto. Em histórias de terror, são eles que dão o tom assustador e ajudam a criar, nos leitores, as impressões necessárias para aceitar os fatos extraordinários
que serão narrados. Observe.
O homem que veio à noite
[...] Por dois dias, o vento soprou mais gelado e mais forte, com pancadas constantes de chuva, até que, na terceira noite, despencou sobre a Inglaterra a mais furiosa tormenta de que tenho lembrança. Os trovões ribombavam e faziam estremecer o céu, ao passo que os raios iluminavam todo o firmamento. O vento soprava a intervalos, ora soluçando de modo calmo, ora, num repente, esmurrando, aos uivos, as vidraças das janelas, até que o próprio vidro começava a chacoalhar na moldura. [...] Em que pesem a trovoada, a chuva e o vento, ainda assim escutei o barulho — o barulho surdo de uma pisada furtiva, ora na relva, ora nas pedras — que de vez em quando parava por completo, depois recomeçava, cada vez mais perto. Endireitei o corpo, assustado, a escutar o som fantasmagórico. As passadas pararam bem na porta e foram substituídas por ruídos arfados e resfolegantes de quem andara muito e depressa. Apenas a grossura daquela porta me separava desse sonâmbulo de passos leves e respiração pesada. Não sou nenhum covarde, porém a selvageria daquela noite, o vago aviso que eu recebera [“há um perigo rondando a sua casa e eu o aconselho a ter muito cuidado”] e a proximidade desse estranho visitante me deixaram tão apreensivo que eu seria incapaz de dizer alguma coisa, tão seca estava a minha boca. Estendi a mão, todavia, e agarrei meu sabre, com os olhos fixos na entrada da casinhola. Eu rezava em silêncio para que aquela coisa, ou o que quer que fosse, batesse na porta, ameaçasse, chamasse meu nome ou fornecesse alguma pista quanto a seu caráter. Qualquer perigo conhecido seria melhor do que aquele horrível silêncio, interrompido apenas pelos resfôlegos rítmicos. À luz fraca da lamparina em vias de apagar, vi o puxador da porta mexer, como se alguém estivesse exercendo uma pressão muito branda nele pelo lado de fora. Devagar, devagar, o trinco foi sendo liberado, até que se fez uma pausa de um quarto de minuto ou mais, em que continuei sentado, em silêncio, com os olhos esbugalhados e o sabre desembainhado. Em seguida, muito lentamente, a porta começou a girar nos gonzos e o ar cortante da noite entrou assobiando pela fresta. 

Doyle, Arthur Conan. O cirurgião de Gaster Fell. In: Manguel, Alberto (org.). Contos de horror do século XIX. Tradução: Beth Vieira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 520-522. (Fragmento).
Ao longo do texto observamos o uso de adjetivos com três finalidades  referentes: criar a atmosfera de uma noite tempestuosa e assustadora (destacados em verde); introduzir os misteriosos sons ouvidos pelo narrador e caracterizar a chegada de um estranho amedrontador (destacados em rosa); descrever o estado do narrador e suas reações em função do pânico que se apodera dele após identificar a presença de alguém que tenta entrar na sua casa (destacados em laranja). A caracterização inicial do cenário — noite tempestuosa, ventos cortantes, barulho de trovões e raios — é o primeiro passo para o estabelecimento do tom assustador dessa narrativa. O narrador, em primeira pessoa, usa os adjetivos para traduzir as impressões que essa noite provocava sobre seus nervos. No segundo parágrafo, um novo elemento é introduzido: a chegada inesperada de um desconhecido. Em lugar de chamar a atenção do leitor para o indivíduo, o narrador prefere descrever toda a série de sons que sugerem uma aproximação sorrateira. Isso contribui para aumentar a atmosfera de terror e para criar a sensação de que algo sinistro está prestes a acontecer. A descrição da aproximação do visitante é intercalada por informações sobre o estado de ânimo do narrador, que se amedronta cada vez mais, antevendo um momento de confronto. Por fim, a maçaneta da porta começa a ser lentamente aberta, como se o indivíduo que tentava abri-la quisesse entrar furtivamente na casa. O texto se encaminha para o seu momento de maior tensão e o leitor, sugestionado pelos adjetivos utilizados, imagina que o estranho deve ser algum ser assustador, prestes a atacar o narrador que, indefeso e paralisado pelo medo, aguarda sua chegada. 




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